Di Recife para noiz

por Giovanna Roecker

Nessa terça-feira, dia 24 de novembro, a Etec Irmã Agostina teve o grandiosíssimo prazer de conhecer Alessandra Leão. Cantora, compositora, percussionista, Alessandra encanta todos com o seu sotaque que vem “di” Recife. Na sua fala, acompanhada por Danilo Gusmão e Isabela Morais, os alunos tiveram uma apresentação cheia de “falas entonadas” e um pouquinho do gosto de uma forma de cultura que poucos conhecem.

A carreira de cantora de Alessandra começou desde muito nova – como ela mesmo contou – aos 16 anos já voltada ao lado das artes. Alessandra tentou ser atriz, porém não se viu nesse ramo, então partiu para a dramaturgia, mesmo que se sentisse bem fazendo isso, não era o que a completava. E foi no meio de dramaturgia e atuação que ela notou a necessidade da sua alma pela música e começou a cantar. Alessandra diz que sempre lutou contra o discurso que para viver de música tinha que vir para São Paulo. E fez acontecer a sua crença, cresceu como cantora em Recife e se encontrou no interior do nordeste, onde ela não só teve uma descoberta cultural, mas uma descoberta pessoal. Há dois anos ela sentiu vontade de vir morar em São Paulo, não pela carreira, mas pela chance de viver em uma cultura diferente.

Alessandra citou, recitou e cantou muito sobre as brincadeiras populares e a que mais foi dita fora a “Cavalo marinho” – Uma brincadeira, que tem duração de 8 horas, onde se tem não só os atores que participam, mas a plateia sempre tem que estar atenta ou se não pode levar “Bexigada”. Em suas falas, ela leva os seus ouvintes para uma viagem a um Brasil pouco conhecido para a juventude urbana. Ela com sua graciosidade traz a nós a reflexão sobre a velhice e a juventude, quando conta a história da Dona Virgília, e em uma reflexão ainda mais profunda presenteia a todos com a frase: “Ela não tem que ser resgatada, tem que ser reconhecida” ao falar dos talentos de dança, canto e a energia de Virgília.

No meio das “brisas” sobre as brincadeiras típicas, Danilo Gusmão faz uma analogia um tanto interessante, na qual as brincadeiras no nordeste tem a mesma força que o grafite em São Paulo, você pode gostar, pode odiar, mas tem que entender e conviver com ele(s).

Feminista ativista, Alessandra, em resposta a pergunta da Isabela, fala sobre a tag primeiro assédio e também sobre a dificuldade de entrar no mundo da música sendo mulher, principalmente em lugares conservadores, onde a mulher não pode nem ao menos querer tocar, e conta suas lutas de empoderamento para que aos poucos em lugares que sempre conservaram esses pensamentos reacionários. Ela, junto de um grupo de mulheres ensinou que mulheres também podem tocar e que podem tocar até melhor do que muitos homens.

Não fazendo só a frente de um movimento de luta social, Alessandra levanta a bandeira contra a romantização da pobreza, onde todos acham “lindo” e “fofo” aquela pessoa que vive em extrema miséria conseguir cantar: “Quando vemos de uma forma romântica, olhamos muito de longe. Quando desromantizamos, vemos o quão duro é a realidade da essência”, Alessandra – como é dito popularmente – “Lacra as inimigas” ao mostrar que não é bonito aquela mulher com o dom do canto não ter nem um banheiro em casa.

E no meio das diversas perguntas que caíram sobre ela durante aquele horário de almoço, houve uma que obteve a resposta que mais marcou, e o que realmente representou a ida da Alessandra aquela escola e que demostrou que ela apesar de encarar daquela forma, conseguiu com êxito o seu objetivo, sendo essa pergunta sobre como ela se sentia perante a missão de levar um tipo de cultura pouco conhecida a vários lugares do Brasil, dando a chance de centenas de pessoas conhecê-la. E ela em duas palavras respondeu “Um desafio”.

Parabéns e obrigad@ Alessandra, por ter ganhado esse desafio dentro do nosso colégio.

tem gente no meio

romulofroesdaryandornellesera abril. já estava mais cinza. Não tanto, mas dois mil e catorze já tinha chacoalhado bastante na nossa cabeça já. – o Garcia Marquez, por exemplo, foi em março. havíamos combinado no café na rua do apartamento onde eu então morava, ali, perto do Ana Rosa. eu morava há menos de uma quadra e foi o Romulo que chegou 20 minutos antes do combinado. e dizia que andava pela cidade o dia todo. transporte público. “detesto chegar atrasado. chego antes. eu e o Rodrigo”. romulo e o fones no ouvido. ali.

sentamos no café e como café era, falamos da vida. “e quando sai o Barulho Feio, homem?” – eu, particularmente, passei a esperar por esse novo disco do Romulo depois de assisti a um vídeo feito na Casa de Francisca onde anunciava novas canções – novas parcerias: No chão, no chão, com Alice Coutinho – de maio de 2012.

não. “no chão, no chão” não integra ~barulho feio~. mas a parceria com Alice Coutinho integra o álbum em canções como “Espera”, faixa na qual Juçara Marçal canta com Romulo. Aliás, a parceria Coutinho/Fróes deu nome ao disco de “estreia” da Juçara – estreia com áspas noencarnado momento da estreia Juçara já é experiente cantora, envolvida encarnadonos mais diversos projetos, como o próprio Metá Metá –  e como não deixa de ser o próprio “álbum de estreia”, também um projeto. algo admirável é a formação de palco dos shows do encarnado – juçara na mesma linha – de frente – que seus três companheiros de jornada – Rodrigo Campos, Kiko Dinucci e Thomas Rohrer.

pois bem. eu esperava por barulho feio há dois anos e, com ele já gravado, ali, em abril de 2014, Romulo me conta que ia segurar um pouco mais o disco porque tinha tido uma ideia – “que vai dar um trabalho” – que era colocar são paulo dentro do disco.

porque já estava.

ao andar muito por sao promulo_froes_02-795x426aulo toda, pra chegar 20minutos adiantado seja la onde for, ouvindo insistentemente o disco novo, ali pronto, mas ainda não lançado, cada hora por um motivo, ouvia também são paulo, que invadia a escuta de fone do flaneur.

barulho feio.

um dos pontos altos dessa invasão e apropriação que invade o disco é entre justamente as faixas:  -barulho feio- e -espera- .a voz da mulher ao fundo, dizendo, berrando.

“essa música na verdade eu tinha mandado pro nuno [ramos] aí ele falou “vou fazer, vou fazer, vou fazer…” até que eu desisti e mandei pro rodrigo [camṕos]. Nascia ~três canções segunda-feira~ passou um tempo o nuno me procura com letra feita pra canção que virou outra”- confidenciou noutra ocasião Romulo, sobre nada menos que  ~Ó~.

ó – outra face da mesma moeda, ou a mesma moeda, mais cinza e menos rabelesiana de  “não tenha ódio no verão”, de tomzé, que ganha uma versão e tanto de Juçara

[2014 foi o ano das eleições lembra? lembra? de cada ódio novo? de cada discussão de família no whatsapp? ódio. não tenha ódio no verão. fala um ódio novo. ouve. cara. um ódio novo.]

barulho feio

uma semana antes do lançamento do disco em todas as plataformas online – soundcloud, groovshark, youtube, download no site e também o belo disco físico [que gastou um monte de tinta preta, que praticamente impossibilita o autógrafo – a não ser que você ande com canetas prateadas na bolsa], pois bem, uma semana antes, veio ao mundo o “clipe” de barulho feio.

uma antiga são paulo andando de bonde. tão ontem. tão hoje.

se no encarnado abre-se mão do contra-baixo pelos riffes polifônicos das guitarras Dinucci e Campos, mais as cordas arranhadas da rabeca de Rohrer, Marcelo Cabral conduz junto a Romulo o caminho tortuoso da canção no meio de tanto barulho, ainda que quem abra o disco seja o sopro de Thiago Françarevolta-do-bonde.

~barulho feio~ dá vertigem. se o amor existe ou só demora.

mas não dorme não. um deus nasceu. uma prece ali, no meio do caos. e a corda amplificada, sintetizada e os barulhos lá de fora. morreu de pé com os pés no chão.

a letra de alice fala do aborto no meio da rua. assim cruamente. a imagem da mulher com o feto nas mãos. parir um deus. ser o deus da criação daquele ser. deus que imperativo  – impôs a dor e a finitude. mas não é deus? não vamos todos? até morrer. e a mulher que fala já sabe do constante julgamento: “quem diz a ela o que é ou não dela”. ela mesma?

se em encarnado é a juçara quem se dilacera com as cortantes cordas “a feriiiiida se abriu” em ciranda dilacerante, aqui é a voz de um homem, grave, introvertido, andando no centro da cidade [da estação República do metrô e a Catedral da Sé, no dia 02 de junho de 2014, entre as 12:56 e 13:40, como consta no encarte do disco físico.], é ele quem canta o aborto. [tema absolutamente negligenciado pelos dois candidatos a presidência que foram para o segundo turno. tema tratado com imensa hipocrisia por uma população que se nega a fazer política de saúde pública para milhares de mulheres que a despeito da interdição passam pelo processo…]

após a primeira escuta do álbum só conseguia pensar que aquele era o álbum mais parecido com ele mesmo, com mais assinatura do Romulo de todos.  – talvez empolgação do momento, e afirmava isso mesmo considerando “Um labirinto em cada pé” um disco muito mais, hm, completo?. É que o labirinto ainda era um álbum ainda ‘colado’, digamos assim. Barulho Feio é uma conversa. é um discurso, uma narrativa. que as vozes de São Paulo ajudam a tecer. o caminho do bonde no clipe de ó. mas a própria tensão do violão de Romulo e sua voz inpasso torto vai a escolatrospectiva brigando com os ruídos de Thiago França e Guilherme Held – importante parceiro de Romulo de outros álbuns inclusive, ao lado de Nuno Ramos e Clima. aquele velho jeito torto de fazer samba, influência explícita de Nelson Cavaquinho, que já estava clara lá no ~Calado~: álbum de estreia, que acabou de ganhar uma linda versão em vinil com texto de contracapa de Marcus Preto. Texto esse que deixa clara a sua ideia de que a música de São Paulo dos últimos 10 anos não passa incólume a Romulo – vide tudo que vem em seu rastro e com o qual ele conversa. não à toa, Marcus mediava também os encontros do Passo Torto no Sesc Santo Amaro que, não à toa, contava com Ná Ozzetti, como alguém que coroava em ato a fala de Marcus. justo ela, que sabe bem dessa coisa de “música paulistana”.

mais uma vez também não custa lembrar que Romulo está em estúdio com os fiéis amigos gravando um projeto sobre Nelson Cavaquinho, é claro. já passaram por lá até agora, dona inah, rodrigo campos, thiago frança…

romulo fez um disco de paulistano como um paulistano. fone no ouvido andando na rua. mais do que como um bom paulistano, como um artista, um flaneur, alguém com a melancolia cinza de sãopaulo e que enfim achou sua turma, a galera com quem se entende pra fazer canção – coisa que ele gosta mesmo de fazer  “não fiz um álbum duplo com mais de trinta canções?”

Se o Labirinto em cada pé é o disco de maturidade, que permite ao Romulo uma um labirintoliberdade de criação após a querela do rótulo, no meio tempo entre um disco e outro, nasce o Passo Torto; e o “achar sua turma” com certeza reverbera na produção do Barulho e, no que eu acho que constitua essa assinatura do disco como o “mais Romulo”.

Se no ~Calado~ em muitos momentos você precisa caçar a canção (violão e voz) de Romulo no meio de todos os arranjos que vão sendo construícaladodos ali com grandes, com bons, excelentes instrumentistas, no ~Barulho o violão~ a voz de Romulo dialoga – confronta, conversa, interage, nega, se acerta e afirma – é com a sua turma. não significa falar a mesma língua, mas são vozes autorais marcantes e que se reconhecem nessa busca de fazer música como acredita.

essa afirmação de “achar minha turma” dá-se em ato na interpretação do álbum TRANSA, em junho de 2012, em que Romulo é convidado pelo projeto Radiola Urbana 72, Com curadoria de Ramiro Zwetsch, editor-chefe do programa Metrópolis da TV Cultura e criador do site Radiola Urbana, num projeto que dialogava com vários álbuns lançados há quarenta anos.

Caetano Veloso é também importante influência na obra de Romulo. Para o show, ele convida Kiko Dinucci, Marcelo Cabral, Rodrigo Campos, os três parceiros passo torto, o baterista Curumim e o soprista Thiago França.

A patota.

Romulo Alice Marcelo Rodrigo crossing

o show volta em 2014 no sesc e também no Palco Radiola 72 da Virada Cultural na Rio branco – que contou ainda com Céu cantando Catch a Fire, Otto cantando Martinho da Vila. Eu, particularmente, pude ouvir o resultado do encontro ali, pela primeira vez.”psicodélico né?”- ouvi de um (chato) velho companheiro de canção durante o show. e de fato, eles deglutiram o álbum e fizeram um baita show. e ali não havia mesmo a imponência da forte interpretação de caetano, mas a grave e melancólica voz de Romulo misturando-se com a interação da sua patota e seu jeito de comer, digerir, degustar, maltratar, refazer, virar do avesso as canções. vide a introdução de mora na filosofia – puro barulho feio! – com direito ao contrabaixo do Marcelo, costurando a voz do Romulo ecoando no silencio logo no começo…

e pra celebrar mesmo, Romulo cita no meio de “triste bahia” o álbum recém lançado e mais premiado de 2014, que havia feito show na noite anterior daquela tarde ensolarada, o ~encarnado~,

“quero morrer num dia breve

quero morrer num dia azul

quero morrer na américa do sul [rodrigo campos]”

Barulho feio é uma decantação possível da obra de Romulo até aqui: Clima, Nuno Ramos, Guilherme Held, Rodrigo Campos, Thiago França, Alice Coutinho, Juçara Marçal,YB, Cacá.

– os italianos adoraram.

minutinho

vem descendo tão cromatic-insistentemente, que acha um pouso, dá um salto e começa de novo porque você não viu, não viu, não viu o que aconteceu. e assim, meio que num afobamento ritmado, cadenciado, e pleno. e serenamente, porque cada uma das síladas é ditas com clareza uma vez, baixo, e depois, eu canto uma oitava acima e ainda faço outra oitava pra dizer que você não me atendeEeEeEu

e ai cai devagar porque dizem que eu fiquei foi chorando. pausa. sorrindo.

cantando.

e eu repito as palavras, e o violão continua naquele mesmo jogo circular. e ele é aberto, ele swinga junto comigo. e ele faz zigue zagues de notinhas agudas e me embala nessa dança de densidade de tempo.

denso. você não sabe quanto vale cinto minutos na vida. e nem quantas eternidades cabem nesses 2minutos e 57de-aperto-no-peito-e-cantar-e-cantarolar…

e nem nunca nunca e nunca e nunca vai

Los Laicos

Los Saicos

 por Vinicius Oliveira*

            Surgida na década de 60, a banda peruana Los Saicos produziu durante a sua curta trajetória (1964-1966) um trabalho que parecia ser uma prévia do que seria o punk surgido nos EUA e no Reino Unido na década de 70.

Apesar de ser considerada uma das primeiras bandas punk da história, o grupo não se identificava como tal. Pancho Guevara, ex-baterista, ao ser questionado sobre a intenção do grupo de produzir algo novo no cenário musical dos anos 60, respondeu: “Eu não sei o que é punk. Nós queríamos tocar rock and roll, mas este é o som que saiu. Eu não sei de onde ele veio. Foi algo que surgiu quando comecei a tocar”.

Durante seus três anos iniciais a banda gravou seis singles e fez vários shows por Lima e por outras cidades do Peru. Retornaram em 2006, lançando uma compilação de suas principais músicas. Em 2010, lançaram uma segunda compilação. No ano seguinte, foi produzido um documentário sobre a banda, chamado “Saicomania”. José Beramendi, o produtor, afirma que “eles foram os primeiros a tocar o que mais tarde se tornou punk. Não existia nenhum nome para o som que eles faziam, mas os riffs eram punk”.

Essa hipótese da sonoridade do punk ter surgido em Lima por um grupo de rapazes que não tinham nenhuma intenção de dar início a um novo movimento foi reforçada por uma matéria de 2012 do jornal britânico The Guardian, que deu ainda mais destaque à banda. A matéria também leva em consideração o fato de que a banda se deslocava dos roqueiros peruanos tradicionais por ter uma postura indisciplinada, sendo detidos pela polícia várias vezes. Algo que a aproxima mais das bandas punks.

Se o punk surgiu ou não no Peru, o fato é que Los Saicos produziu, anos antes, algo que se aproximou muito do que seria o punk.

Saiba mais clicando aqui, aqui e aqui.

*Vinicius Oliveira é integrante do grupo de estudos da canção “Das coisas que aprendi nos discos” e estudante.

Barrett – zunido de inseto raro.

Por Isabela Morais*

[antes de iniciar a leitura, dê o play! 😉 ]

desde que fiz um retiro budista há alguns anos atrás, eu não mato mais insetos. ao menos me esforço. “não matarás” e/ou “que todos os seres sejam felizes” não diz respeito, ao menos para os budistas, apenas aos seres humanos.

“deus deve perdoar a morte das baratas, ao menos. essas ele dá um desconto” – bom, eu quando vejo uma hoje em dia, peço para que saia ou uso a tática de mudá-la de lugar. “mas baratas são resistentes, pode acabar o mundo e elas ficam” – poisé. bicho forte esse não?

acabei de voltar de uma outra espécie de retiro: quatro dias numa montanha, sem nenhum sinal de telefone ou internet, na serra da mantiqueira, com cachoeiras maravilhosas e uma diversidade imensa de… insetos. há algum tempo, desde que não os mato (e desde que um grilo mudou a vida de um amigo meu), eu observo suas formas. são belos. os insetos desses últimos dias me hipnotizavam. interrompia qualquer conversa para vê-los, contemplá-los. a leveza, a complexidade das formas e as cores. quantas cores!! moscas com detalhes em azul cintilante, libélulas em laranja, borboletas amarelas…

bojana

Bugs – Bojana Knezevic

sim. os insetos de lá são mais variados e diversos porque lá a natureza é mais livre e diversa que a nossa. a mata tem a companhia da água, que tem a companhia das pedras, que tem a companhia do sol, dos ventos, que levam as sementes pelo ar, onde avoam os passarinhos de tantas cores e cantos e os insetos…

e não é porque seja “natureza” simplesmente. ao ver um por-do-sol do alto do morro aqui na minha cidade, ao lado de um cafezal imenso, os insetos eram bem menos variados e bem mais “hostis” ao nosso senso de normalidade e higiene.

a metamorfose narrada pela personagem de Kakfa lida com aquilo no qual nos transformamos e transformamos os próprios insetos. se num cafezal, numa monocultura, natureza homogeneizada e regrada aos nossos ditames, os insetos já são nocivas respostas a tal violência, imagine numa cidade, metrópole, concreto… baratas, formigas e pernilongos também são respostas ao mundo que criamos.

methamorphosis – bojana knezevic

Mas é verdade que vez em quando, mesmo em meio ao caos, vemos uma bela borboleta, nos surpreendemos com as formas e o andar de pequenos besouros. aliás, só de pensar que o rock, o pop, a indústria cultural e o mundo não foram mais os mesmos depois da união de quatro besouros, já começo a repensar se, de fato, os desprezamos tanto assim…

Caso é que insetos de beleza rara para as nossas vista e audição cansadas estão zanzando por aí todo o tempo. Raridades que irrompem de forma quase que violenta diante do nosso cotidiano. Na maior parte das vezes, a mão violenta os tira de vista, de nós.

há 69 anos atrás o mundo pariu um inseto raro. Ele fazia barulhos estranhos, gostava de produzir cores em movimento e cantar as nossas pequenas besteiras e belezas. Syd Barrett pariu o Pink Floyd – e mesmo depois de sua saída, seu voo ainda inspirou a música floydiana. e mesmo depois de sua saída, ele mesmo deu outros voos.

inseto raro, de zunido excêntrico. seres humanos costumam as vezes capturá-los e exibi-los em quadros, analisando anatomia, ou por puro prazer de colecioná-los. insetos raros, envenenados por inseticidas e os mais diversos venenos.

Grasshoppers – Bojana Knezevic

se o exótico Syd se sentiu deslocado do nosso ecossistema e se perdeu… se nosso ecossistema estava pronto e/ou merecia a beleza de tal voo, não sei dizer.

Syd foi espécie rara. inseto de vida intensa (e curta?). Barret. envenenado por si mesmo e por nossos padrões de normalidade?

Syd Barret, enquanto houver vento, ainda haverá teu voo de cores e formas sempre inusitadas. a música é casada com o vento. avoos.

e cuidemos nós dos insetos novos que aparecem a todo instante. lá no retiro ensinam que eles têm seu próprio espaço e hábito e, caso ele se encontre num lugar que não desejamos, que saibamos capturá-los e levá-los com cuidado para onde possam se mover com liberdade. respeitar sua existência. mais que isso, se encantar com ela. deixá-los zunir…

Syd Barret - inseto raro

Syd Barret – inseto raro

Shine on forever, Syd!

January 6th 1946

*Isabela Morais é cantora, compositora, socióloga integrante há 12 anos do projeto UMMAGUMMA – The Brazilian Pink Floyd

sobre alguns álbuns de 2014, breves comentários

“LP1” – FKA twigs

por Matheus Carvalho

M - LP1

Desde que surgiu no cenário musical em 2012, FKA vem chamando a atenção do meio alternativo e dos críticos com uma sonoridade inédita que combina o artificial e o orgânico muito bem. Com seu álbum de estréia, a inglesa e dançarina Tahliah, conseguiu abranger de forma primorosa uma gama grande de sons e ruídos. A sua voz flutua melodicamente pela série de batidas e pelos sintetizadores pesados, equilibrando a sonoridade do álbum e as letras representam vários aspectos de um relacionamento, este podendo ser tanto com uma pessoa como com a indústria musical. O álbum também reflete a o envolvimento artístico de twigs, através claro de suas músicas, mas também através dos vídeos que contam com produções impecáveis e performances de dança, além da arte da capa e do encarte, desenvolvidas pelo designer Jesse Kanda.

Queen of the Clouds” – Tove Lo

por Matheus Carvalho

M - Queen of The Clouds

Hoje em dia a maioria das letras de músicas pop tem como tema principal os relacionamentos amorosos ou o amor em si. Queen of the Clouds da sueca Tove Lo (trocadilho entre o nome da cantora e o verbo em inglês “To Love”) não se diferencia nesse aspecto e sim na maneira como é executado. O álbum é separado em três partes: The Sex, The Love e The Pain (O Sexo, O Amor e A Dor) onde em cada uma dessas divisões é representada uma fase de um relacionamento. Outro destaque do álbum vai para as letras que além de serem bem explícitas em relação ao sentimento da cantora e compositora, são muito inteligentes, apresentando uma série de trocadilhos e viradas divertidos de se observar, tudo isto na voz rouca e extremamente agradável de ouvir de Tove.

“Vista Pro Mar” – SILVA

por Matheus Carvalho

M - Vista Pro Mar

Segundo disco de estúdio de SILVA, Vista Pro Mar é um registro de diversas paisagens e experiências, começou a ser concebido na Flórida ao som de diversas referências musicais, principalmente americanas, e foi concluído no final do verão passado em Portugal. O álbum tem uma relação muito forte com a praia, como o título já diz, e isso é perceptível através de samples com sons do mar, de gaivotas, e também através das letras e dos títulos das músicas como “Entardecer” e “Maré”. A sonoridade do álbum combina os sintetizadores e batidas eletrônicas com saxofones e trompetes, o que leva a outro forte do álbum, que é a total autonomia sobre o resultado final que o cantor exerce, uma vez que este produz e compõe todas as suas músicas com a ajuda eventual de seu irmão, oferecendo ao público um produto muito mais pessoal e sincero.

“Banda do Mar” – Banda do Mar

por Matheus Carvalho

M - Banda do Mar

A banda que se formou a partir de três projetos diferentes se caracteriza por uma sonoridade indie rock bem gostosa de ouvir. Os vocalistas trocam de acordo com as músicas, representando melhor as letras que variam bastante sendo mais por influência de Mallu Magalhães ou de Marcelo Camelo, ou até fruto do relacionamento dos dois que se extendem também aos campos criativos. Ainda sobre as letras podemos observar a presença de metáforas bem inteligentes como a de “Mais Ninguém” que supostamente é sobre um filho não desejado por Mallu, mas cobrado por pessoas ao seu redor. O álbum é bem coeso e como eu já disse, gostoso de se ouvir, já que são 45 minutos que não se percebe passar.

Nação Zumbi – Nação Zumbi

por Vinicius Oliveira

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Desde 2007 sem lançar um álbum de estúdio, a banda de Manguebeat Nação Zumbi apresentou este ano seu mais novo trabalho, o álbum homônimo Nação Zumbi. O novo disco não é uma mudança radical no estilo da banda, mas apresenta novidades. A faixa ‘’ A Melhor Hora da Praia ’’, que conta com a participação de Marisa Monte, se distancia do punk da época de Chico Science ao experimentar a MBP da cantora. “ Um Sonho ” já segue mais a linha do pop rock e “ O Que Te Faz Rir”, que apresenta backing vocal feminino, se aproxima mais do reggae. As letras, que no geral falam sobre amor, também se diferem dos trabalhos anteriores, que não contavam com muitas letras românticas. As Risofloras estão em maior presença aqui. As canções que mais se assemelham com o Nação Zumbi do passado são as que encerram o álbum. “Foi de Amor”, “Cuidado” e “Pegando Fogo” apresentam o peso característico do Nação Zumbi, mostrando que a banda não abandonou a sonoridade de tempos mais antigos.

Project46: QUE SEJA FEITA A NOSSA VONTADE

por Allan Felipe

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Como amante do Metal, acredito que a banda com o álbum: que seja feita a nossa vontade é sem duvida nenhuma um dos melhores álbuns que escutei em 2014, principalmente por ser acompanhar já há algum tempo o trabalho da banda. O novo álbum com a temática Brasil e suas manifestações é um álbum inflamado, letras extremamente imersas no cotidiano, uma das características fortes da banda. Acredito que a banda já conseguiu mudar bastante a cara do metal nacional e está mudando ainda mais com as letras em português e fáceis de entender. Destaque para a faixa “Erro +55”: se quiser entender um pouco mais sobre o Brasil e porque ele é do jeito que é, escute a musica que é absurdamente muito boa, e conta um pouco da parte do Brasil que mais existe nesse cenário de manifestações.

pra lembrar (e ouvir) 2014 – listas.

alguns membros do grupo “Das coisas” se dispuseram a listar álbuns de 2014 que lhes marcaram, tocaram e que valem a pena ouvir, saber que existe.

aqui segue uma lista feita a várias mãos, de álbuns nacionais e internacionais.

boa escuta!

escolhas da Isabela Morais

ISa PT1

Barulho Feio – Rômulo Fróes
Convoque Seu Buda – Criolo
Cores e Valores – Racionais Mc’s
Encarnado – Juçara Marçal
Pedra de Sal – Alessandra Leão
Pra Onde Que Eu Tava Indo – Maurício Pereira
Silencia – Ceumar
Vira Lata na Via Láctea – Tom Zé

Isa PT2

escolhas de Cauã Bertoldo

Cauã PT1

Arche – Dir en Grey
Burnt Offering – The Budos Band
Commune – Goat
Jungle – Jungle
Living As Ghosts With Buildings As Teeth – Rishloo
Niggas on The Moon – Death Grips
Run The Jewels II – Run The Jewels
Aphex Twin – Syro
Tellurian – Soen
To Be Kind – Swans

Cauã PT2

escolhas de Matheus Carvalho

Matheus PT1

Banda Do Mar – Banda Do Mar
Broke With Expensive Taste – Azealia Banks
LP1 – FKA twigs

pom pom – Ariel Pink
Queen of the Clouds – Tove Lo
St. Vincent – St. Vincent
Sucker – Charli XCX
They Want My Soul – Spoon
Ultraviolence – Lana Del Rey
Vista Pro Mar – SILVA
Weird Little Birthday – Happyness
Zella Day EP – Zella Day

M - Sucker

bônus: escolha de Vinícius Pistori

Here and Nowhere Else – Cloud Nothings

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e você? qual foi ou quais foram seus álbuns favoritos de 2014? conta pra gente nos comentários!