Pobre Elis

por Isabela Morais*

Uma pergunta descabida

“Caberia Elis Regina hoje no mundo?”

“É claro!” – respondemos, convictos,  à ‘descabida’ questão, afinal falamos da maior intérprete brasileira, para muitos. Mas valeria parar pra pensar… mesmo sendo um grande poeta e um dos maiores letristas do nosso cancioneiro, segundo Chico Buarque no documentário dirigido por Miguel Faria Jr, Vinicius de Moraes não teria vez nesse nosso mundo de hoje, que sofre dessa incapacidade do amor…

Se caberia o grito rasgado, a coragem e a força de Elis nesses nossos e novos (?) tempos, é indagação, que se levada à sério, nos toma tempo. Ao menos Tom Zé fez com que ela coubesse no seu disco, misturando o canto de Milton Nascimento com violão e guitarra (tortos) de Kiko Dinucci e Rodrigo Campos, com o texto de Fernando Faro, feito para a própria. 

Uma ‘Estrela’ suburbana na Via Láctea do Vira Lata

Tom Zé trouxe Elis à baila em seu mais recente álbum “Vira Lata na Via Láctea”, parido no mês de seu aniversário, se alastrando em pleno outubro de eleições, com todo o Brasil escancarado em discursos polarizantes de ódio, rasgo, acidez, cegueira, expectativas sem chão e frustração. A brincadeira do próprio Tom Zé – sempre desvelando sentidos vira latados seus próprios trabalhos – é de que ele é o vira lata em meio às constelações de talentos que partilham com ele a feitura do disco, majoritariamente “novos nomes”, “artistas contemporâneos”, sobre quem ele rasga tamanhos elogios: Trupe Chá de Boldo, Filarmônica de Pasárgada, Criolo, , O Terno, Silva, Daniel Maia e, os já citados, Kiko Dinucci, Rodrigo Campos.

Longe de ser uma ode cega à geração mais nova, esse é o mesmo álbum que abre com um lembrete à juventude Ipad, ipad, ipod, aí pode, em “Geração Y”:

Daqui a alguns anos
Vamos ter de governar – ah, ah!
Daqui a alguns anos
Vamos ter de governar – ah, ah!
Daqui a alguns anos
Infelizmente governar

Oh, e os nossos ideais, ai, quem diria
No mesmo camburão da burguesia
Uma renca de parentes atender
Nos ritos e delitos do poder

Puta, que tragédia
Desaba sobre nós!
Logo depois que a ilusão tem voz

Sagaz como sempre na sua percepção de tempo, Tom Zé lida com o presente, olhando também para o passado, se projetando pro futuro. Ali também figuram Caetano Veloso, na única parceria dos “parceiros” de Tropicália, na derradeira canção do álbum, uma valsa que bailam sobre um'”A Pequena Suburbana”, naquela periferia / Uma simples vira-lata no fundo da via láctea / Sem nome sem dinastia .

Mas é ao lado de Milton Nascimento que Elis Regina transita (como uma pequena suburbana?) na via láctea de jovens estrelas. “Pour Elis” é a quinta canção do álbum e tem letra de Fernando Faro. Menos do que uma parceria convencional, Tom Zé mesmo explica que “transformara em canção um texto escrito por Fernando Faro, como introdução de um vídeo, no primeiro aniversário da morte dela”.

De “Estrela” para “Pour Elis”

Esse mesmo texto introduziu não apenas esse vídeo (desconhecido, ao menos por ora, por essa que vos digita), mas também o último show de Elis Regina “Trem Azul”, dirigido pelo próprio Faro. Elis Regina o recita o texto intitulado “Estrela”:

Estrela – Fernando Faro/Elis Regina

Agora o braço não é mais o braço
erguido num grito de gol.
Agora o braço é uma linha, um traço,
um rastro espelhado e brilhante.
E todas as figuras são assim:
desenhos de luz, agrupamentos de pontos,
de partículas, um quadro de impulsos,
um processamento de sinais.
E assim – dizem – recontam a vida.
Agora retiram de mim a cobertura de carne,
escorrem todo o sangue, afinam os ossos
em fios luminosos e aí estou
pelo salão, pelas casas, pelas cidades,
parecida comigo.
Um rascunho,
uma forma nebulosa feita de luz e sombra
como uma estrela. Agora eu sou uma estrela.

O mesmo texto ganhando tons, nuances, frases melódicas e sentidos distintos… Tom Zé, pelo que conta, se inspirou na leitura de Faro do texto para daí se apropriar da letra e transformá-la em canção. Para tal, ele mexe na ordem dos versos, criando um refrão e uma outra narrativa, ainda que costurada pelos mesmos elementos.

Pour Elis – Tom Zé/Fernando Faro

Agora o braço não é mais o braço
erguido num grito de gol.
Agora o braço é uma linha, um traço,
um rastro espelhado e brilhante.

Um rascunho de um rascunho
uma forma nebulosa feita de luz e sombra
como uma estrela. Agora eu sou uma estrela.

Agora retiram de mim a cobertura de carne,
escorrem todo o sangue, afinam os ossos
em fios luminosos e aí estou
pelos salões, pelas casas, pelas cidades,
parecida comigo.

E assim – dizem – recontam a vida.

E assim – dizem – recontam a vida.

E todas as figuras são assim:
desenhos de luz, agrupamentos de pontos,
de partículas, um quadro de impulsos,
um processamento de sinais e aí estou
pelos salões, pelas casas, pelas cidades,
parecida comigo.

E assim – dizem – recontam a vida.

E assim – dizem, dizem, dizem – recontam a vida.

O texto foi feito por Faro inspirado na própria trajetória de Elis e na percepção crítica de sua obra e relação com o seu público. Em depoimento no documentário sobre os 30 anos do show “Trem Azul”, Fernando Faro fala sobre a ideia de levar pro show o diálogo com a TV, com projeções, sobre as conversas com Elis e o fato de que ela havia sido desencarnada: “As pessoas tiraram de mim a carne e fizeram de mim um rascunho, linhas…então agora eu sou uma estrela.” Para Faro, ‘Trem Azul’ era a luz azulada saindo pelas frestas das casas, a luz da televisão ligada, por onde as estrelas se exibem, em fios luminosos. Elis, destituída da pessoa de carne e de ossos afinados, era estrela, feita de luz e sombra, passando pelos fios. A fala de Elis – gravada a pedido dela, como também conta Faro, para registro em vinil – aliás o texto vai pra contracapa do vinil – segue os caminhos tortuosos do desencarnar-se e virar entidade, de forma natural, como quem constata e conta um caso. E ainda se ri “e assim – dizem – recontam a vida”. A entonação vai ascendendo, sobre uma base instrumental quase homogênea, pouco perceptível, que oscila levemente, conduzindo, entre pequenos intervalos de notas longas, a fala de Elis, saindo de pequenas dissonâncias e tons menores, até a abertura em tom maior onde ela diz de forma entusiasmada: “Agora eu sou uma estrela!”

E daí a banda invade a cena, rápida, certeira e lá está a estrela radiante num arranjo avassalador de “Aprendendo a Jogar”, onde solta aquele agudo, aberto, escancarado. E a estrela conta/canta como se mostra erguida na contradição de ser estrela e operária, gente e luz, expectativa e desencontro: vivendo e aprendendo a jogar.

Milton Nascimento em Passo Torto

A canção de Tom Zé, evidentemente, segue caminhos bem distintos. Ser uma estrela não é o ápice da letra, ao contrário. Remanejando as frases, Tom Zé encerra a primeira parte da canção já com o verso “Agora sou uma estrela”, numa frase melódica descendente em notas longas e melancólicas.

Os primeiros segundos da canção apresentam um violão dedilhado, quase inofensivo até que, mesclado aos versos nos tons da voz de Milton, temos uma guitarra com timbre distorcido com um dedilhado em contraponto que segue pelas duas primeiras estrofes, onde Tom Zé canta poucos e certeiros versos (destacados em negrito na letra “Pour Elis”).

Quando avançamos “Agora retiram de mim a cobertura de carne”, para cada tempo do compasso temos um toque aberto da guitarra rasgada, como quem de fato rasga a pele para tirar a carne e voltamos ao jogo de guitarras de Kiko Dinucci e Rodrigo Campos.

Se o instrumental de “Estrela” era uma cama sutil, aqui a escolha da dupla Kiko e Rodrigo para costurar o instrumental da canção não poderia ser mais certeira para desconstruir o texto e recolocá-lo noutras bases de sentido.

Rômulo Fróes publicou recentemente na Ilustríssima um texto onde fala sobre o encontro das guitarras de Kiko Dinucci e Rodrigo Campos, seus parceiros musicais. Apesar da afinidade e dos trabalhos em conjunto e/ou parceria, seja no grupo Passo Torto, seja em participações nos trabalhos autorais de cada um, os caminhos de ambos para a guitarra elétrica partem de lugares completamente distintos e como bem aponta Rômulo determinam suas escolhas no uso do instrumento: enquanto Kiko trabalha com pedais de distorção destacando a pegada percussiva, com riffies mais curtos e “staccatos”, Rodrigo valoriza mais o reverb e o delay, que prolongam o som, contemplando sua preferência por arpejos e melodias mais fluidas e elaboradas.

Para Rômulo, e corroboramos com ele, a diferença das guitarras é complemento de um diálogo que cria uma base movediça para as canções, as construindo e desconstruindo por dentro. A polifonia das cordas – cortantes e tortas – de Kiko e Rodrigo instauram novas demandas ao intérprete, ou, como quer Fróes, criam novas canções dentro de uma mesma canção.

Rômulo aqui fala sobre os trabalhos do Passo Torto e especialmente do disco “Encarnado”, de Juçara Marçal, amplamente aclamado – ainda que à margem do grande trem azul – como o grande disco de 2014. As constatações cabem, tranquilamente, para o encontro deles em “Pour Elis”.

Voltemos ao segundo momento da canção:

Agora retiram de mim a cobertura de carne,
escorrem todo o sangue, afinam os ossos
em fios luminosos e aí estou

O rasgar das guitarras no retirar da carne devolve o lugar aos contrapontos, que, de fato, criam uma base movediça pra frase melódica torta que Tom Zé cria, especialmente no verso “afinam os ossos”, onde há o choque semiótico entre o afinar da ação e a sensação de desafinação que a entoação tem, ainda mais atrelada aos cantos das guitarras. E então mais um choque, porque a voz que guia é a de Milton Nascimento, ninguém menos. Aquela sobre a qual a própria Elis disseram que seria a voz de Deus, caso ele cantasse… Não que durante sua carreira Milton Nascimento não tenha entoado cantos sobre bases e frases tortas… – Um dos exemplos possíveis é o álbum MINAS, que leva as suas iniciais, e que tem momentos absolutamente tortos, basta ouvir “Gran Circo” ou o canto de Milton em “Trastevere” – um Passo Torto avant la lêttre – o tema da cidade, o barulho feio, dissonante. Mas pensemos nos últimos trabalhos do Milton. Estamos longe de vê-lo em terreno espinhoso como um duo de guitarras Dinucci e Campos, com uma letra como o poema de Faro, musicado por Tom Zé…

Ao mesmo tempo, como mais uma vez pontua Rômulo, alguns arranjos de Rodrigo chegam perto do barroco. A ascendência pré-refrão de “pelos salões, pelas casas, cidades parecida comigo” corta aqui pelo lirismo. Parecer-se consigo mesma, vista assim espalhada – mais que ser estrela, é onde a carga volitiva-emocional na letra se carrega. Elis Regina é o que ouvimos dela, o que vemos dela, mas, sobretudo, o que não está em tudo que ela ainda ressoa e reverbera. Por outro lado – e ainda, talvez do mesmo, Elis mais de uma vez reivindicou ao longo de sua carreira o direito de contrariar as expectativas e ser parecida com seu próprio processo de criação e maturação artística, mais do que com qualquer julgamento daquilo que se dizia/queria dela.

A frase contada entre um riso de canto de boca por Elis aqui se torna o refrão. Do texto lírico da diva prestes a entrar no palco, à melancolia da constatação prosaica. Recontam a vida. – Todos, como novamente atacará imperativo Milton “e todas as figuras são assim…”.

E assim dizem recontam a vida

Se no formato do texto “Estrela”, Elis parece observar de fora como tudo se reduziu à  representação luminosa da tevê até ver a si própria ali ‘parecida consigo’ e então constatar-se estrela, como um flaneur entre as vitrines luminosas do trem(tv) azul, o texto no formato “Pour Elis” já tem a sua representação como dado e enfatiza exatamente o processo doloroso que a transforma em representação, não apenas ela, mas todas as figuras.

Eduardo Galeano em entrevista a Eric Nepomuceno lembrou da fala de Muriel Rukeyser, poeta norte-americana: “Tá, tá bem, isso que o mundo é feito de átomos… O mundo não está feito de átomos, o mundo está feito de histórias” e completava: “o mundo deve estar feito de histórias, porque são as histórias que a gente conta, que a gente escuta, recria, multiplica, as histórias são as que permitem transformar, o passado em presente. E que, também, permitem transformar o distante em próximo, o que está distante em algo próximo, possível e visível.”

Remanejar as estrofes é mais do que mudar as coisas de lugar. Ao trazer para o centro da canção o verso “e assim – dizem – recontam a vida”, a letra de “Pour Elis” reencarna os fios luminosos. Se mais que átomos e impulsos, somos histórias, como quer Galeano, nosso recontar cotidiano, mesmo em espectro luminoso, nos refrata e reflete em nossa humanidade.

E a memória de Elis se transforma de estrela para uma transeunte, mais um feixe no meio de tantos de um mundo que talvez não pudesse/possa “fabricar” outra dela. Elis Regina, que nasceu de um programa de rádio, viajou pra capital, estourou num festival da canção, ajudou a inventar a TV no Brasil, explodiu em todo território nacional como a corajosa intérprete que se remodelava, dialogava com os mais diversos compositores contemporâneos. O modelo de indústria cultural que forjou a estrela Elis, em sombra e luz, já não é mais o mesmo, ainda que pelas infinitas possibilidades da internet a pimentinha pudesse deitar e rolar.

Tom Zé cantou uma canção para Elis com gosto de ressaca de um mundo pós Elis. E a canta na voz de seu camarada, num Brasil de ressaca, com gosto de 7 a 1, um braço não erguido num grito de gol e uma necessidade pujante de aprender a entender sua própria derrota, a recontar sua própria história.

Elis virou musiquinha de gás?

Tom Zé nos dá ainda mais uma camada de sentido a se defrontar com a escolha do título da canção: Pour Elis está separada (e ao mesmo tempo conectada) por uma letra a uma das obras mais conhecidas de Beethoven, Pour Elise.

Talvez de nome não seja assim tão conhecida. Comparando os artigos sobre a peça musical em inglês e português na Wikipedia, encontramos uma diferença: o artigo em português fala sobre “a musiquinha do gás”. Pour Elise, ou Fur Elise, é aquele trecho (riffie?rs) de piano que se repete entre duas notas em meio tom, que anunciam o vendedor de gás passando na sua rua ou consolam seus ouvidos na espera de um operador de telemarketing. (e como a criatividade humana não tem limites e a internet é um mar, existe um vídeo no Youtube bem didático)

“Pour Elise” é composta em Lá Menor, tonalidade sombria e triste. O prosaísmo de “Pour Elis” a torna também triste. Quais outras proximidades mais seriam possíveis entre as duas peças? – Ouso aqui aproximar a polifonia das frases do piano com a estrutura polifônica das cordas que sustentam as duas Elises. – teclas de piano em constante movimento – arpejos, dedilhados e riffies de guitarra em constante movimento. – e ao absurdo que possa soar tal aproximação, eu ainda ouso propor uma audição simultânea dos dois vídeos (possibilidades modernas – que a mim decorreram de acasos objetivos, dar play em dois vídeos ao mesmo tempo, mesmo sem querer e perceber as duas canções se misturarem, quase um par – dissonantes diálogos de tempo e espaço).

Ao se transformar em musiquinha do gás, representação em auto-falante, releitura, apropriação, recorte e bricolagem, “Pour Elise” não deixa de ser Beethoven, parecido consigo, modulando em midi pelas ruas das cidades. Ao recortar a frase em meio-tom para o jingle do gás, deixamos tantas nuances e sutilezas. O texto “Estrela” para alguns fora profético: pouco tempo depois Elis deixaria a carne, literalmente, para se tornar, definitivamente, apenas uma estrela, uma memória, fios luminosos, uma voz gravada em áudio ou vídeo.

Transformara Tom Zé Elis em musiquinha de gás? Caberia Elis Regina no mundo de hoje? Caberia esse mundo dentro de Elis?

Ao transformar o texto profético de Faro (e Elis) em canção Tom Zé provoca esse choque de sentidos: Tom Zé reconta Elis Regina, aparentemente a aproximando da banalidade dos transeuntes, mais uma, a musiquinha que dobra a esquina no falante. Mas cada pedaço dessa história é recheado de uma densidade, interessada e interessante, que a renova. Renova não apenas pela memória de Elis, mas pelo que ela ainda tem de muito encarnado, que é a própria voz de Milton Nascimento, fazendo-o cantar diante do novo e inusitado como outrora, onde a sua potência ganha vida. E a ganha justamente do lado da nova constelação – as guitarras tortas de Kiko e Rodrigo – , exercício contínuo de Elis Regina, que ousou estar conectada com seu tempo. Em forma e conteúdo, entre Tom Zé e mercado, entre “Estrela” – Trem Azul, Beethoven e o jingle, entre sombra e luz, memórias e histórias, violão simples e guitarras cortantes, entre passado e futuro, Elis se projetando em seu lugar. Elis, presente!

 

* Isabela Morais é cantora, compositora, socióloga, professora

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