tem gente no meio

romulofroesdaryandornellesera abril. já estava mais cinza. Não tanto, mas dois mil e catorze já tinha chacoalhado bastante na nossa cabeça já. – o Garcia Marquez, por exemplo, foi em março. havíamos combinado no café na rua do apartamento onde eu então morava, ali, perto do Ana Rosa. eu morava há menos de uma quadra e foi o Romulo que chegou 20 minutos antes do combinado. e dizia que andava pela cidade o dia todo. transporte público. “detesto chegar atrasado. chego antes. eu e o Rodrigo”. romulo e o fones no ouvido. ali.

sentamos no café e como café era, falamos da vida. “e quando sai o Barulho Feio, homem?” – eu, particularmente, passei a esperar por esse novo disco do Romulo depois de assisti a um vídeo feito na Casa de Francisca onde anunciava novas canções – novas parcerias: No chão, no chão, com Alice Coutinho – de maio de 2012.

não. “no chão, no chão” não integra ~barulho feio~. mas a parceria com Alice Coutinho integra o álbum em canções como “Espera”, faixa na qual Juçara Marçal canta com Romulo. Aliás, a parceria Coutinho/Fróes deu nome ao disco de “estreia” da Juçara – estreia com áspas noencarnado momento da estreia Juçara já é experiente cantora, envolvida encarnadonos mais diversos projetos, como o próprio Metá Metá –  e como não deixa de ser o próprio “álbum de estreia”, também um projeto. algo admirável é a formação de palco dos shows do encarnado – juçara na mesma linha – de frente – que seus três companheiros de jornada – Rodrigo Campos, Kiko Dinucci e Thomas Rohrer.

pois bem. eu esperava por barulho feio há dois anos e, com ele já gravado, ali, em abril de 2014, Romulo me conta que ia segurar um pouco mais o disco porque tinha tido uma ideia – “que vai dar um trabalho” – que era colocar são paulo dentro do disco.

porque já estava.

ao andar muito por sao promulo_froes_02-795x426aulo toda, pra chegar 20minutos adiantado seja la onde for, ouvindo insistentemente o disco novo, ali pronto, mas ainda não lançado, cada hora por um motivo, ouvia também são paulo, que invadia a escuta de fone do flaneur.

barulho feio.

um dos pontos altos dessa invasão e apropriação que invade o disco é entre justamente as faixas:  -barulho feio- e -espera- .a voz da mulher ao fundo, dizendo, berrando.

“essa música na verdade eu tinha mandado pro nuno [ramos] aí ele falou “vou fazer, vou fazer, vou fazer…” até que eu desisti e mandei pro rodrigo [camṕos]. Nascia ~três canções segunda-feira~ passou um tempo o nuno me procura com letra feita pra canção que virou outra”- confidenciou noutra ocasião Romulo, sobre nada menos que  ~Ó~.

ó – outra face da mesma moeda, ou a mesma moeda, mais cinza e menos rabelesiana de  “não tenha ódio no verão”, de tomzé, que ganha uma versão e tanto de Juçara

[2014 foi o ano das eleições lembra? lembra? de cada ódio novo? de cada discussão de família no whatsapp? ódio. não tenha ódio no verão. fala um ódio novo. ouve. cara. um ódio novo.]

barulho feio

uma semana antes do lançamento do disco em todas as plataformas online – soundcloud, groovshark, youtube, download no site e também o belo disco físico [que gastou um monte de tinta preta, que praticamente impossibilita o autógrafo – a não ser que você ande com canetas prateadas na bolsa], pois bem, uma semana antes, veio ao mundo o “clipe” de barulho feio.

uma antiga são paulo andando de bonde. tão ontem. tão hoje.

se no encarnado abre-se mão do contra-baixo pelos riffes polifônicos das guitarras Dinucci e Campos, mais as cordas arranhadas da rabeca de Rohrer, Marcelo Cabral conduz junto a Romulo o caminho tortuoso da canção no meio de tanto barulho, ainda que quem abra o disco seja o sopro de Thiago Françarevolta-do-bonde.

~barulho feio~ dá vertigem. se o amor existe ou só demora.

mas não dorme não. um deus nasceu. uma prece ali, no meio do caos. e a corda amplificada, sintetizada e os barulhos lá de fora. morreu de pé com os pés no chão.

a letra de alice fala do aborto no meio da rua. assim cruamente. a imagem da mulher com o feto nas mãos. parir um deus. ser o deus da criação daquele ser. deus que imperativo  – impôs a dor e a finitude. mas não é deus? não vamos todos? até morrer. e a mulher que fala já sabe do constante julgamento: “quem diz a ela o que é ou não dela”. ela mesma?

se em encarnado é a juçara quem se dilacera com as cortantes cordas “a feriiiiida se abriu” em ciranda dilacerante, aqui é a voz de um homem, grave, introvertido, andando no centro da cidade [da estação República do metrô e a Catedral da Sé, no dia 02 de junho de 2014, entre as 12:56 e 13:40, como consta no encarte do disco físico.], é ele quem canta o aborto. [tema absolutamente negligenciado pelos dois candidatos a presidência que foram para o segundo turno. tema tratado com imensa hipocrisia por uma população que se nega a fazer política de saúde pública para milhares de mulheres que a despeito da interdição passam pelo processo…]

após a primeira escuta do álbum só conseguia pensar que aquele era o álbum mais parecido com ele mesmo, com mais assinatura do Romulo de todos.  – talvez empolgação do momento, e afirmava isso mesmo considerando “Um labirinto em cada pé” um disco muito mais, hm, completo?. É que o labirinto ainda era um álbum ainda ‘colado’, digamos assim. Barulho Feio é uma conversa. é um discurso, uma narrativa. que as vozes de São Paulo ajudam a tecer. o caminho do bonde no clipe de ó. mas a própria tensão do violão de Romulo e sua voz inpasso torto vai a escolatrospectiva brigando com os ruídos de Thiago França e Guilherme Held – importante parceiro de Romulo de outros álbuns inclusive, ao lado de Nuno Ramos e Clima. aquele velho jeito torto de fazer samba, influência explícita de Nelson Cavaquinho, que já estava clara lá no ~Calado~: álbum de estreia, que acabou de ganhar uma linda versão em vinil com texto de contracapa de Marcus Preto. Texto esse que deixa clara a sua ideia de que a música de São Paulo dos últimos 10 anos não passa incólume a Romulo – vide tudo que vem em seu rastro e com o qual ele conversa. não à toa, Marcus mediava também os encontros do Passo Torto no Sesc Santo Amaro que, não à toa, contava com Ná Ozzetti, como alguém que coroava em ato a fala de Marcus. justo ela, que sabe bem dessa coisa de “música paulistana”.

mais uma vez também não custa lembrar que Romulo está em estúdio com os fiéis amigos gravando um projeto sobre Nelson Cavaquinho, é claro. já passaram por lá até agora, dona inah, rodrigo campos, thiago frança…

romulo fez um disco de paulistano como um paulistano. fone no ouvido andando na rua. mais do que como um bom paulistano, como um artista, um flaneur, alguém com a melancolia cinza de sãopaulo e que enfim achou sua turma, a galera com quem se entende pra fazer canção – coisa que ele gosta mesmo de fazer  “não fiz um álbum duplo com mais de trinta canções?”

Se o Labirinto em cada pé é o disco de maturidade, que permite ao Romulo uma um labirintoliberdade de criação após a querela do rótulo, no meio tempo entre um disco e outro, nasce o Passo Torto; e o “achar sua turma” com certeza reverbera na produção do Barulho e, no que eu acho que constitua essa assinatura do disco como o “mais Romulo”.

Se no ~Calado~ em muitos momentos você precisa caçar a canção (violão e voz) de Romulo no meio de todos os arranjos que vão sendo construícaladodos ali com grandes, com bons, excelentes instrumentistas, no ~Barulho o violão~ a voz de Romulo dialoga – confronta, conversa, interage, nega, se acerta e afirma – é com a sua turma. não significa falar a mesma língua, mas são vozes autorais marcantes e que se reconhecem nessa busca de fazer música como acredita.

essa afirmação de “achar minha turma” dá-se em ato na interpretação do álbum TRANSA, em junho de 2012, em que Romulo é convidado pelo projeto Radiola Urbana 72, Com curadoria de Ramiro Zwetsch, editor-chefe do programa Metrópolis da TV Cultura e criador do site Radiola Urbana, num projeto que dialogava com vários álbuns lançados há quarenta anos.

Caetano Veloso é também importante influência na obra de Romulo. Para o show, ele convida Kiko Dinucci, Marcelo Cabral, Rodrigo Campos, os três parceiros passo torto, o baterista Curumim e o soprista Thiago França.

A patota.

Romulo Alice Marcelo Rodrigo crossing

o show volta em 2014 no sesc e também no Palco Radiola 72 da Virada Cultural na Rio branco – que contou ainda com Céu cantando Catch a Fire, Otto cantando Martinho da Vila. Eu, particularmente, pude ouvir o resultado do encontro ali, pela primeira vez.”psicodélico né?”- ouvi de um (chato) velho companheiro de canção durante o show. e de fato, eles deglutiram o álbum e fizeram um baita show. e ali não havia mesmo a imponência da forte interpretação de caetano, mas a grave e melancólica voz de Romulo misturando-se com a interação da sua patota e seu jeito de comer, digerir, degustar, maltratar, refazer, virar do avesso as canções. vide a introdução de mora na filosofia – puro barulho feio! – com direito ao contrabaixo do Marcelo, costurando a voz do Romulo ecoando no silencio logo no começo…

e pra celebrar mesmo, Romulo cita no meio de “triste bahia” o álbum recém lançado e mais premiado de 2014, que havia feito show na noite anterior daquela tarde ensolarada, o ~encarnado~,

“quero morrer num dia breve

quero morrer num dia azul

quero morrer na américa do sul [rodrigo campos]”

Barulho feio é uma decantação possível da obra de Romulo até aqui: Clima, Nuno Ramos, Guilherme Held, Rodrigo Campos, Thiago França, Alice Coutinho, Juçara Marçal,YB, Cacá.

– os italianos adoraram.