Barrett – zunido de inseto raro.

Por Isabela Morais*

[antes de iniciar a leitura, dê o play! 😉 ]

desde que fiz um retiro budista há alguns anos atrás, eu não mato mais insetos. ao menos me esforço. “não matarás” e/ou “que todos os seres sejam felizes” não diz respeito, ao menos para os budistas, apenas aos seres humanos.

“deus deve perdoar a morte das baratas, ao menos. essas ele dá um desconto” – bom, eu quando vejo uma hoje em dia, peço para que saia ou uso a tática de mudá-la de lugar. “mas baratas são resistentes, pode acabar o mundo e elas ficam” – poisé. bicho forte esse não?

acabei de voltar de uma outra espécie de retiro: quatro dias numa montanha, sem nenhum sinal de telefone ou internet, na serra da mantiqueira, com cachoeiras maravilhosas e uma diversidade imensa de… insetos. há algum tempo, desde que não os mato (e desde que um grilo mudou a vida de um amigo meu), eu observo suas formas. são belos. os insetos desses últimos dias me hipnotizavam. interrompia qualquer conversa para vê-los, contemplá-los. a leveza, a complexidade das formas e as cores. quantas cores!! moscas com detalhes em azul cintilante, libélulas em laranja, borboletas amarelas…

bojana

Bugs – Bojana Knezevic

sim. os insetos de lá são mais variados e diversos porque lá a natureza é mais livre e diversa que a nossa. a mata tem a companhia da água, que tem a companhia das pedras, que tem a companhia do sol, dos ventos, que levam as sementes pelo ar, onde avoam os passarinhos de tantas cores e cantos e os insetos…

e não é porque seja “natureza” simplesmente. ao ver um por-do-sol do alto do morro aqui na minha cidade, ao lado de um cafezal imenso, os insetos eram bem menos variados e bem mais “hostis” ao nosso senso de normalidade e higiene.

a metamorfose narrada pela personagem de Kakfa lida com aquilo no qual nos transformamos e transformamos os próprios insetos. se num cafezal, numa monocultura, natureza homogeneizada e regrada aos nossos ditames, os insetos já são nocivas respostas a tal violência, imagine numa cidade, metrópole, concreto… baratas, formigas e pernilongos também são respostas ao mundo que criamos.

methamorphosis – bojana knezevic

Mas é verdade que vez em quando, mesmo em meio ao caos, vemos uma bela borboleta, nos surpreendemos com as formas e o andar de pequenos besouros. aliás, só de pensar que o rock, o pop, a indústria cultural e o mundo não foram mais os mesmos depois da união de quatro besouros, já começo a repensar se, de fato, os desprezamos tanto assim…

Caso é que insetos de beleza rara para as nossas vista e audição cansadas estão zanzando por aí todo o tempo. Raridades que irrompem de forma quase que violenta diante do nosso cotidiano. Na maior parte das vezes, a mão violenta os tira de vista, de nós.

há 69 anos atrás o mundo pariu um inseto raro. Ele fazia barulhos estranhos, gostava de produzir cores em movimento e cantar as nossas pequenas besteiras e belezas. Syd Barrett pariu o Pink Floyd – e mesmo depois de sua saída, seu voo ainda inspirou a música floydiana. e mesmo depois de sua saída, ele mesmo deu outros voos.

inseto raro, de zunido excêntrico. seres humanos costumam as vezes capturá-los e exibi-los em quadros, analisando anatomia, ou por puro prazer de colecioná-los. insetos raros, envenenados por inseticidas e os mais diversos venenos.

Grasshoppers – Bojana Knezevic

se o exótico Syd se sentiu deslocado do nosso ecossistema e se perdeu… se nosso ecossistema estava pronto e/ou merecia a beleza de tal voo, não sei dizer.

Syd foi espécie rara. inseto de vida intensa (e curta?). Barret. envenenado por si mesmo e por nossos padrões de normalidade?

Syd Barret, enquanto houver vento, ainda haverá teu voo de cores e formas sempre inusitadas. a música é casada com o vento. avoos.

e cuidemos nós dos insetos novos que aparecem a todo instante. lá no retiro ensinam que eles têm seu próprio espaço e hábito e, caso ele se encontre num lugar que não desejamos, que saibamos capturá-los e levá-los com cuidado para onde possam se mover com liberdade. respeitar sua existência. mais que isso, se encantar com ela. deixá-los zunir…

Syd Barret - inseto raro

Syd Barret – inseto raro

Shine on forever, Syd!

January 6th 1946

*Isabela Morais é cantora, compositora, socióloga integrante há 12 anos do projeto UMMAGUMMA – The Brazilian Pink Floyd